A Casa Sul Global na Alliance Magazine: Enfrentando lacunas no financiamento para o clima, a natureza e as pessoas​

Fundos locais reivindicam protagonismo no debate internacional para assegurar que o financiamento chegue aos territórios e às comunidades

A Casa Sul Global em ação na COP30 em Belém (Pará) - Foto: A Casa Sul Global

Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela Alliance Magazine. Esta tradução para o português foi realizada pela equipe d’A Casa Sul Global.

Por Juliana Tinoco, Jonathas Azevedo e Paula Tanscheit*

Fundos locais em todo o Sul Global já possuem infraestrutura, confiança e expertise para financiar soluções para o clima e a natureza de forma eficiente. No entanto, permanecem estruturalmente invisíveis nas tomadas de decisão internacionais. A Casa Sul Global existe para tornar essa lacuna impossível de ser ignorada e para deslocar o poder em direção às comunidades que lideram a ação socioambiental.

A Casa Sul Global foi lançada no ano passado como uma plataforma de articulação política, mobilização, produção de conhecimento e colaboração entre atores filantrópicos do Sul Global. Seu propósito é influenciar os fluxos de financiamento e as dinâmicas de poder em apoio à justiça socioambiental, garantindo que soluções locais sejam colocadas no centro das conversas globais.

O primeiro encontro d’A Casa Sul Global ocorreu na COP30 em Belém (PA), organizado pela Alianza Socioambiental Fondos del Sur e pela Rede Comuá. Muito além de um espaço físico, a plataforma nasceu como um gesto político: uma “casa” erguida no coração da Amazônia para que os fundos socioambientais do e para o Sul Global – as verdadeiras infraestruturas vivas do financiamento nos territórios – pudessem ocupar o centro dos debates sobre financiamento para o clima, a natureza e as pessoas.

A iniciativa surgiu em resposta a uma lacuna estrutural na arquitetura do financiamento para clima e natureza: embora haja um reconhecimento crescente da necessidade de localizar recursos, a autoridade sobre a tomada de decisão, as narrativas e os fluxos de capital permanecem concentrados em instituições distantes dos territórios mais afetados pelas crises socioambientais.

O encontro na COP30 estendeu-se por sete dias, durante os quais A Casa Sul Global sediou 19 sessões, incluindo painéis, rodas de diálogo, mesas temáticas e conversas no formato fishbowl. Mais de 1.200 pessoas passaram pelo espaço. Um total de 109 palestrantes participou, representando pelo menos 50 países, e mais de 80 organizações contribuíram ativamente para a programação. Esses números importam não como indicadores de escala, mas como prova da relevância da nossa presença e atuação.

Fundos locais como infraestrutura político-financeira

Diversos painéis demonstraram como os fundos comunitários e socioambientais combinam redistribuição financeira com governança territorial, acompanhamento de longo prazo e fortalecimento institucional. As discussões abrangeram desde fundos liderados por pessoas indígenas e negras até iniciativas feministas, movimentos de justiça climática liderados por jovens, redes de agroecologia, atores de soberania alimentar e lideranças comunitárias que respondem a emergências climáticas. Graças a intercâmbios, tornaram-se visíveis pelo menos três lacunas estruturais interconectadas.

A lacuna de visibilidade da infraestrutura, indiscutivelmente o desequilíbrio central que A Casa Sul Global busca desafiar. Ao longo de sete dias, uma arquitetura de financiamento já existente circulou pelo espaço: fundos que operam em diversos territórios compartilharam seus modelos operacionais e de governança, inovações em concessão de apoio (grant-making), avaliações de risco e estratégias de longo prazo. Tudo isso combinando proximidade, relações sólidas de confiança, expertise contextual, governança compartilhada e capacidade de resposta rápida. O maior risco, argumentaram os participantes, não reside em financiar as comunidades diretamente, mas em não o fazer – muitas vezes devido à falta de confiança e a sistemas de prestação de contas rígidos que limitam a ação local.

A lacuna de representação. Espaços como a COP frequentemente convidam à participação do Sul Global, mas raramente permitem que os atores do Sul definam o debate. A Casa Sul Global abordou essa lacuna não apenas por quem falou, mas também pela forma como o programa foi desenhado. As atividades foram desenvolvidas por meio de uma chamada aberta e curadas por um comitê intercontinental composto por representantes de fundos do Sul Global, da Rede de Fundos Comunitários da Amazônia e do movimento #ShiftThePower, que atuaram como parceiros estratégicos nesta primeira edição. Essa abordagem priorizou vozes plurais, governança compartilhada e colaboração Sul-Sul. As discussões desafiaram modelos de financiamento que reproduzem a dependência e questionaram quem define prioridades, critérios e acesso aos recursos. Essas são conversas frequentemente deixadas de fora em fóruns multilaterais. A infraestrutura permanece periférica sem representação nos espaços de definição de agenda.

A lacuna de tradução de poder é outra barreira. O financiamento climático opera frequentemente por meio de estruturas técnicas e burocráticas que têm dificuldade em interpretar sistemas de conhecimento territoriais. Entre diferentes regiões, e com tradução simultânea, os palestrantes descreveram barreiras geográficas, linguísticas, burocráticas e políticas que impedem as comunidades de acessar recursos. O desafio não é a falta de inovação em nível local, mas a falha do financiamento global em reconhecer e se adaptar a esses sistemas.

Juntas, essas lacunas reforçam-se mutuamente: a invisibilidade limita a representação, a representação limitada restringe a autoridade narrativa e a ausência de mecanismos eficazes de tradução mantém os sistemas de financiamento locais estruturalmente subvalorizados.

Para além da participação

O que emergiu em Belém (PA) não foi um modelo novo, mas um ecossistema existente, tornando-se mais visível. A Casa Sul Global buscou criar um local de articulação. Atores da América Latina, África e Ásia identificaram desafios comuns: exigências restritivas de doadores, ciclos de financiamento curtos, apoio institucional limitado e assimetrias na definição de agendas. Ao mesmo tempo, identificaram forças compartilhadas: proximidade territorial, avaliação de risco contextual, confiança relacional e presença de longo prazo.

O retorno das pessoas que participaram refletiu essa mudança. Observadores notaram que as discussões foram além da linguagem técnica e retornaram a questões de justiça, experiência vivida e distribuição de poder. Outros enfatizaram que o espaço permitiu que as redes operassem não apenas como plataformas de convocação, mas como infraestrutura política, coordenando agendas e fortalecendo o posicionamento coletivo.

O que vem a seguir para A Casa Sul Global

Após a COP30, nosso foco voltou-se para a sistematização das lições da primeira edição e o fortalecimento das estruturas de governança. Em 2026, estamos priorizando a consolidação institucional e o engajamento estratégico em fóruns internacionais, como a London Climate Action Week em junho, e outros encontros nos quais se desenrolam os debates sobre financiamento para clima e natureza. O objetivo não é replicar um formato, mas sustentar uma presença coordenada do Sul Global em arenas em que são definidas as estruturas de financiamento.

O que o primeiro ano d’A Casa Sul Global demonstrou, em última análise, é que as lacunas no financiamento para clima e natureza não estão enraizadas na ausência, mas no desalinhamento. As infraestruturas e a liderança já existem nos territórios. O que permanece desigual é seu reconhecimento dentro dos sistemas globais.

A questão muda de “se o financiamento pode chegar aos territórios” para “se as instituições globais estão dispostas a se adaptar” a realidades que já funcionam. A Casa Sul Global não está aqui para resolver lacunas estruturais. Queremos torná-las impossíveis de ignorar e fortalecer a infraestrutura política necessária para enfrentá-las.

* Juliana Tinoco é coordenadora executiva na Alianza Socioambiental Fondos del Sur. Jonathas Azevedo é diretor executivo na Rede Comuá. Paula Tanscheit é gerente de comunicação na Alianza Socioambiental Fondos del Sur.

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