Países emergentes ou em desenvolvimento recebem apenas 17% do financiamento climático global

A Casa Sul Global ocupa fóruns internacionais da filantropia para defender a redistribuição de recursos financeiros e do poder de decisão para os territórios.

Este artigo foi publicado originalmente em nosso LinkedIn.

Por A Casa Sul Global 

Em 2024, as doações filantrópicas destinadas à mitigação da mudança do clima ultrapassaram, pela primeira vez, 2% de todos os repasses globais, somando até US$ 18,4 bilhões, segundo a sexta edição do Report on Funding Trends in Climate Change Mitigation Philanthropy, da ClimateWorks Foudation. Apenas as fundações filantrõpicas responderam por cerca de US$ 6 bilhões do total, um crescimento de 30% em relação ao ano anterior e mais que o dobro do registrado em 2020.

Se por um lado os números apontam que a agenda climática ganhou espaço na filantropia, o relatório revela o outro lado desse indicador: aproximadamente 70% do financiamento filantrópico regional permanece concentrado nos Estados Unidos e na Europa.

Quando se analisa o financiamento climático em sua totalidade, o desequilíbrio é ainda mais notável. Artigo desenvolvido por Iago Montalvão e publicado na revista Tempo do Mundo, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), indica que os países emergentes ou em desenvolvimento (excluindo a China) receberam apenas 17% do montante global em 2022, o equivalente a US$ 244 bilhões. Além da desproporção no volume, há distorção nas prioridades: 68% dos recursos enviados a esses países foram direcionados a setores de mitigação, como energia e transporte, enquanto a adaptação climática recebeu 5%.

Os dados confirmam a necessidade de reestruturar a distribuição, a acessibilidade e a governança dos recursos, alinhando o fomento às necessidades das nações que compõem o Sul Global.

Há brechas para a mudança. Entre 2023 e 2024, conforme o relatório da ClimateWorks Foundation, o financiamento de fundações para mitigação no Brasil cresceu 30%, atingindo US$ 105 milhões, percentual idêntico ao registrado no continente africano. As estratégias focadas em pessoas e comunidades subiram 48%, somando US$ 755 milhões.

Contudo, a expansão levanta questões centrais: como o dinheiro chega à ponta? Quem define as prioridades de investimento? Quanto poder é efetivamente transferido para quem vive a crise e constrói as soluções?
A Casa Sul Global marca presença na Climate Week NYC, em Nova York, e no WINGSForum, em Montréal, para enfrentar essa assimetria. Os espaços reúnem quem influencia as decisões da filantropia e os fluxos de capital internacional.

As soluções para a crise climática já operam nos territórios, construídas por povos indígenas, comunidades tradicionais, movimentos sociais, mulheres e juventudes periféricas. Fundos de justiça socioambiental do Sul Global fazem a ponte direta com esses territórios, reduzem burocracias e operam com base na confiança e na corresponsabilidade. Ainda assim, permanecem sub representados nas estruturas decisórias globais.

Reformar a arquitetura do financiamento climático é tarefa coletiva e global, fruto de alianças entre os setores filantrópicos, financeiros, governos, sociedade civil e as pessoas. A Casa Sul Global ocupa os fóruns internacionais para garantir que o protagonismo, os recursos e o poder de decisão estejam onde a vida acontece: nos territórios.

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