Por meio de financiamento flexível, baseado na confiança, e parcerias com redes locais, comunidades na linha de frente da justiça climática e ambiental lideram a transformação.
Durante a São Paulo Climate Week, a Casa Sul Global destacou o impacto de iniciativas locais e o valor do financiamento comunitário para soluções climáticas.
Na manhã de 5 de agosto, recebemos os participantes no Museu das Favelas, um prédio histórico no centro de São Paulo, para o evento na São Paulo Climate Week: “Redefinindo Fluxos de Financiamento para Clima e Natureza”, organizado pela A Casa Sul Global. O evento reuniu um ecossistema diverso de atores filantrópicos brasileiros – fundos locais e territoriais, fundações corporativas e familiares, fundos ativistas e socioambientais – para discutir como o financiamento climático e de natureza pode chegar às comunidades de base de forma segura, direta e eficaz.
O encontro destacou o papel estratégico das comunidades de base — povos indígenas, comunidades tradicionais, populações locais e periféricas — que estão na linha de frente da resistência à crise climática e humanitária, ao mesmo tempo em que projetam soluções escaláveis e sustentáveis. Juntos, refletimos sobre uma pergunta-chave: como o financiamento climático e de natureza pode alcançar as comunidades que enfrentam — e resistem — às crises? Por meio de casos práticos e experiências de campo brasileiras, exploramos arranjos institucionais que viabilizam o apoio direto a negócios da sociobiodiversidade e soluções baseadas na natureza.
As cadeiras foram dispostas em círculo, com quatro ao centro, ocupadas por Cristina Orpheu (Fundo Casa Socioambiental), Marcelle Decothé (Iniciativa PIPA), Vanessa Lucena (Bem-te-vi Diversidade) e Vitor Hugo Silva Neia (Fundação Grupo Volkswagen). Jonathas Azevedo (Rede Comuá), co-criador d’A Casa Sul Global, conduziu a entrevista.
A discussão começou com uma pergunta a Vitor Neia, referindo-se ao Censo GIFE (Grupo de Institutos Fundações e Empresas) 2022–2023: as fundações corporativas lideram os investimentos filantrópicos no Brasil – mais de R$ 2,5 bilhões –, mas apenas 17% vão para iniciativas de terceiros. Vitor destacou a tendência de muitos financiadores priorizarem seus próprios projetos em detrimento de organizações da sociedade civil. A Fundação Volkswagen destaca-se por seguir o caminho contrário.
Neia provocativamente perguntou: “Como podemos falar de filantropia baseada em confiança se nós [os doadores] estamos criando desconfiança?”. Ele criticou a abordagem de “muito controle, pouco impacto” e defendeu a desburocratização, descentralização e a confiança em organizações locais, especialmente fundos e redes do Sul Global que conhecem profundamente o território e suas causas. Sua solução: “potencializar o que já existe”, conclui.
Vanessa Lucena questionou a rotulagem de causas socioambientais como “temas sensíveis”, provocou: “Os povos indígenas são realmente um tema sensível? Que roupagens novas estamos colocando sobre práticas antigas?”. Ela destacou a necessidade de priorizar o impacto comunitário ao invés de focar em “risco de investimento”, e defendeu o financiamento flexível.
Marcelle Decothé ressaltou que movimentos de base há muito defendem a democratização de recursos para garantir que o financiamento chegue a quem de fato realiza o trabalho na ponta. Usando a metáfora da confluência, de Nego Bispo, filósofo e liderança quilombola brasileira, ela enfatizou a colaboração sem perder a identidade: assim como dois rios se encontram, se fortalecem, mas continuam sendo eles mesmos os rios e um novo rio, as organizações e filantropia devem se unir respeitando suas abordagens únicas.
Cristina Orpheu acrescentou uma perspectiva histórica, lembrando que os debates sobre democratização de recursos e fluxo de financiamento para territórios existem há mais de vinte anos. Apesar dessa longa trajetória, espaços filantrópicos apenas recentemente se abriram a essas discussões, reconhecendo cada vez mais as comunidades locais como defensoras essenciais de biomas e atores-chave da justiça socioambiental.
O segundo bloco foi dedicado à apresentação de um exemplo concreto de colaboração entre filantropia tradicional, um fundo local e uma organização comunitária. Participaram Ana Valéria Araújo (Fundo Brasil), Bruna Martins (Rede Cuíra – Rede de Liderança Juvenil da Mata Atlântica Amazônica) e Natalia Cerri Oliveira (Instituto Itaúsa), com mediação de Gugo Siqueira (Rede Comuá).
“Cuíra é uma expressão amazônica, uma gíria que usamos aqui. Significa inquietação, pode significar coceira. Para nós, é uma forte vontade de agir. Por isso chamamos nossa rede de Rede Cuíra, para capturar a inquietação da juventude na defesa dos nossos territórios,” explicou Bruna Martins. Ela falou sobre como o apoio do Fundo Brasil transformou o trabalho da Rede Cuíra em Belém, Pará.
A rede atua na defesa dos “maretórios”, territórios de manguezais, com jovens na linha de frente. A região costeira amazônica possui um milhão de hectares de manguezais; somente no Pará, 400 mil hectares abrigam mais de 45 mil famílias. “É muito importante ter uma rede juvenil conectada, lutando pela defesa dos territórios e por uma vida digna. A juventude conecta a geração do amanhã e promove a troca de conhecimento. Por isso é um grupo crucial para o investimento”, disse.
Bruna destacou que a flexibilidade da doação permitiu que a Rede Cuíra se institucionalizasse e alcançasse metas antes não previstas. Os fundos vieram do Instituto Itaúsa, com o Fundo Brasil, responsável por distribuir e fazer a ponte com a rede.
Natalia Cerri Oliveira expressou sua gratidão pelo Instituto Itaúsa poder apoiar iniciativas como a Rede Cuíra, destacando que tal impacto só foi possível graças à atuação do Fundo Brasil, que garantiu a chegada dos recursos. Ela enfatizou que fundos locais alcançam comunidades de formas que doadores corporativos não conseguem, navegando por processos burocráticos e ampliando o impacto.
Ana Valéria Araújo, Diretora Executiva do Fundo Brasil, enfatizou o impacto das colaborações tripartites. O Fundo Brasil conecta grandes doadores a organizações de base, garantindo que os recursos cheguem rapidamente, com segurança e flexibilidade. “Nosso enfoque é baseado na confiança nos grupos locais. Eles conhecem suas prioridades e são os melhores designers de suas próprias estratégias”, disse.
Ela destacou o Fundo Raízes, em parceria com o Instituto Itaúsa, como modelo de filantropia alinhada. Focado em justiça climática para povos indígenas e comunidades tradicionais, o Raízes apoiou mais de 70 grupos desde 2023, investindo quase R$ 4 milhões em defesa territorial, gestão ambiental, justiça sanitária e economia solidária, priorizando interseccionalidade em diversidade racial, étnica e de gênero.
Em março de 2025, um edital conjunto do Raízes destinou R$ 2,5 milhões diretamente às comunidades, incluindo a Rede Cuíra, permitindo que implementassem suas próprias soluções climáticas, combinando conhecimento tradicional, liderança jovem e práticas inovadoras. Além do financiamento, o Raízes oferece assistência técnica, capacitação e networking com outros atores engajados em lutas semelhantes.
Para Ana Valéria, a experiência da Rede Cuíra mostra como o alinhamento entre a filantropia tradicional e a estrutura de fundos do Sul Global pode gerar mudanças estruturais. Ao combinar recursos corporativos com a agilidade e conhecimento territorial, a parceria fortalece a autonomia e expande a capacidade de defender direitos e proteger a biodiversidade. “É assim que garantimos que aqueles que já cuidam dos territórios possam continuar fazendo isso – com dignidade, estrutura e capacidade de transformar realidades”, concluiu.
A Casa Sul Global organiza diálogos públicos, rodas de conversa e experiências interativas durante semanas do clima para articular redes, captar escuta qualificada e incidir sobre fluxos de financiamento para que cheguem às comunidades na linha de frente.
Na São Paulo Climate Week, promoveu entrevistas, formato aquário e uma experiência gamificada no Museu das Favelas, reunindo filantropia, coletivos e fundos para discutir financiamento climático conectado aos territórios.
Soluções locais fortalecidas por financiamento flexível e baseado em confiança elevam a capacidade de adaptação, preservam biomas e colocam direitos e saberes das periferias e povos tradicionais no centro da agenda climática.
A Casa Sul Global prioriza que a tomada de decisão e a implementação partam dos territórios, valorizando tecnologias ancestrais e experiências concretas que enfrentam a crise socioambiental com resultados práticos.
O financiamento direto, flexível e de baixo entrave burocrático reduz intermediários, acelera a execução e torna os recursos acessíveis a organizações locais que conhecem suas realidades e necessidades.
Essa abordagem reposiciona poder, melhora a efetividade do gasto e amplia o impacto de soluções climáticas locais, especialmente em justiça climática e biodiversidade.
Na Climate Week SP, a programação incluiu: entrevistas abertas, roda em formato aquário e uma dinâmica gamificada conduzida pela Alianza Fondos del Sur, com participação de fundos socioambientais, coletivos e financiadores no Museu das Favelas.
A agenda conectou pré-lançamentos e presenças em outras semanas do clima (London, Rio, African Climate Week) para consolidar parcerias estratégicas e redirecionar financiamento climático para soluções do Sul Global.
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