A Casa Sul Global é uma iniciativa que conecta redes e fundos comunitários do Sul Global, impulsionando soluções lideradas por comunidades e financiamento climático com governança local para justiça climática e social.
“Foi ao lado dos fundos socioambientais que compõem a Alianza Socioambiental Fondos del Sur — atores comprometidos com seus territórios, criativos na mobilização de recursos, enraizados em suas causas e que praticam um fazer filantrópico mais justo e equitativo — que eu compreendi a riqueza das soluções que já existem no Sul Global”, contou Juliana Tinoco, Coordenadora Executiva da Alianza Fondos del Sur.
“E foi inspirada por essas soluções — e pela caminhada coletiva desses atores — que comecei a idealizar um espaço que fosse ao mesmo tempo concreto e simbólico, de articulação e influência estratégica. Uma plataforma para amplificar as vozes do Sul Global nos debates internacionais sobre fluxos de financiamento climático e suas dinâmicas de poder”, relembrou Tinoco durante a fala de abertura do evento.
A iniciativa então se desenvolveu graças à articulação entre a Alianza Fondos del Sur e a Rede Comuá, tornando-se fruto de um processo coletivo entre redes, fundos comunitários e movimentos que atuam para transformar as estruturas do financiamento internacional a partir das perspectivas e práticas do Sul Global, com governança comunitária.
Em sua primeira edição – que marcará o lançamento durante a COP30, em Belém (Brasil) – a Casa Sul Global conta com a parceria da Rede de Fundos Comunitários da Amazônia Brasileira e do movimento #ShiftThePower. Reunimos, em um mesmo espaço, representantes das redes que compõem essa aliança: vozes da América Latina, África e Sudeste Asiático, além de lideranças da juventude, dos povos indígenas e da luta por justiça territorial.
Juliana Tinoco, da Alianza Socioambiental Fondos del Sur, e Jonathas Azevedo, da Rede Comuá deram as boas-vindas aos presentes, no lançamento, com um convite: fazer da Casa Sul Global um lar político, que articula, engaja, mobiliza e influencia, com foco em equidade climática e autonomia das comunidades.
Jonathas lembrou que reunir, em um mesmo espaço, os fundos de justiça socioambiental e de justiça climática do Sul Global, seus parceiros e os fundos comunitários é, mais uma vez, um ato político. A presença d’A Casa Sul em Belém carrega a convicção de que esses fundos “podem e devem contribuir para os debates sobre fluxos de financiamento para clima e natureza”.
A moderação do encontro ficou a cargo de Suleiman Abdullahi, fundador da Common Reserve e representante do movimento #ShiftThePower. Ao abrir o evento, ele adicionou ainda mais força à mensagem central d’A Casa Sul Global: a urgência de repensar não apenas os fluxos de recursos para justiça climática e as estruturas de poder, mas também a transparência, a descentralização, a imaginação política e as formas de decisão coletiva. “Os fundos reunidos aqui hoje, junto a outros que estão abrindo novos caminhos, mostram que outro mundo não é apenas possível – ele já está sendo construído por nós.”
O lançamento comprovou que a diversidade de experiências, iniciativas e fundos comunitários do Sul Global não é um obstáculo, mas sim sua maior força. Cada fala trouxe uma perspectiva singular, e juntas, revelaram uma visão coletiva, interligada por compromissos comuns com a justiça, a autonomia e o cuidado com a vida, com foco em justiça climática e financiamento climático centrado nas pessoas.
Do Alto Rio Negro, no Amazonas (Brasil), Josimara Baré, mulher indígena representando o Fundo Indígena Rutî e a Rede de Fundos Comunitários da Amazônia Brasileira, lembrou que os povos da floresta são parte da resposta para a crise climática. “Mesmo com poucos recursos, seguimos resistindo, criando soluções todos os dias”, disse.
Essa prática cotidiana da resistência e da invenção ecoou na fala de Larissa Amorim, da Casa Fluminense (Brasil), representante da Aliança Territorial da Rede Comuá, que defendeu a justiça territorial como princípio estruturante para mecanismos de financiamento climático.
Para ela, as transformações reais começam a partir das comunidades e é por isso que a aposta é “em uma filantropia com as pessoas, com presença, com escuta, com construção conjunta”.
Essa confiança nas potências locais também atravessou o chamado feito por Joshua Amponsem, do Youth Climate Justice Fund (Global), que enfatizou a urgência de rompermos com a lógica da sub-representação. Apenas 0,76% do financiamento climático global chega às juventudes – e menos ainda às juventudes do Sul Global. Ainda assim, ele nos lembrou que juventude não é ausência de experiência, mas presença de futuro. “Existe um valor real nas parcerias intergeracionais para construir e buscar uma visão compartilhada. Não apenas para o futuro, mas também para o presente, porque queremos ter um presente que seja saudável, que seja viável.”
Nas vozes de Artemisa Castro Félix, do Fondo Acción Solidaria (FASOL – México), e de Lisa Chamberlain, do Environmental Justice Fund (África do Sul), emergiu uma visão comum: a justiça socioambiental só é possível quando se reconhece e valoriza a diversidade. Artemisa ressaltou especialmente o protagonismo das mulheres nas lutas comunitárias e a importância de reconhecer as diferentes realidades vividas por juventudes, pessoas com deficiência, povos indígenas e afrodescendentes, que, segundo ela, “representam formas de ver a vida e de viver a vida”.
Lisa reforçou que “cada contexto tem necessidades diferentes” e que a diversidade é essencial para que o financiamento climático funcione onde é mais necessário. Afirmou ainda que boas redes e fundos comunitários, como as que compõem a Casa Sul Global, funcionam como ecossistemas na natureza, verdadeiros ecossistemas de financiamento comunitário, e defendeu que “a confiança presente em uma rede bem estruturada pode ser um ativo fundamental nas conversas sobre financiamento climático”.
Maria Amália Souza, do Fundo Casa Socioambiental (Brasil), foi direta: “A comunidade tem demanda, conhecimento e solução. Nosso esforço conjunto é para elevar essa realidade, para que mais pessoas da filantropia nacional e internacional entendam que já existe uma infraestrutura super sofisticada de fundos dentro dos países do Sul Global. A nossa proposta é que a filantropia se transforme.” E Cristi Nozawa, do Samdhana Institute, no Sudeste Asiático, fechou esse ciclo através de um depoimento em vídeo, no qual lembrou que os fundos locais não desaparecem em tempos de crises. “Fazemos parte do movimento por justiça socioambiental, por meio dos recursos que disponibilizamos.”
Essas falas, que partiram de diferentes territórios e trajetórias, compuseram juntas um panorama vibrante de possibilidades – não apenas de resistência, mas de construção ativa de novos mundos. Como destacou Josimara Baré, a Casa Sul Global nasce como “um espaço para somar forças com outras redes, onde nossas vozes podem, de fato, ser ouvidas”.
A Casa Sul Global é fruto de um processo coletivo que ecoa o espírito de mutirão – como propõe a presidência brasileira da COP30 – e quer ser um espaço vivo de encontro, articulação e mobilização para economias regenerativas.
A potência do lançamento mostrou que esse espaço já começou a ser ocupado. Mais do que construir algo novo, a Casa Sul Global surge para dar visibilidade ao que já existe: soluções enraizadas em saberes tradicionais e comunitários, já em prática nos territórios, mas que precisam de recursos, de fundos comunitários e de apoio consistente, com alocação direta e de longo prazo para financiamento climático.
É justamente esse movimento de tornar visível e fortalecer o que já pulsa nos territórios que inspira o próximo passo. Como salientou Juliana Tinoco, “seguiremos assim — criando nosso lar coletivo e ocupando novos espaços”.
Que venha Belém!
A Casa Sul Global é uma iniciativa coletiva do Sul Global que conecta redes e fundos comunitários para fortalecer soluções lideradas por comunidades e influenciar fluxos de financiamento climático e as dinâmicas de poder em prol da justiça climática e socioambiental nos territórios.
É uma plataforma viva de articulação política, mobilização e produção de conhecimento, com primeira edição presencial durante a COP30, em Belém (Brasil), em parceria com a Rede de Fundos Comunitários da Amazônia Brasileira e o movimento #ShiftThePower.
A motivação nasce da necessidade de colocar as soluções locais do Sul Global no centro dos debates internacionais sobre financiamento climático, natureza e pessoas, redirecionando recursos de forma justa e acessível para quem está na linha de frente.
O impulso veio da articulação entre Alianza Socioambiental Fondos del Sur e Rede Comuá, inspirada pela diversidade e eficácia de fundos comunitários que já operam no Sul Global e pela urgência de transformar estruturas de poder e regras de financiamento.
A Casa Sul Global é liderada pela Alianza Socioambiental Fondos del Sur e pela Rede Comuá, reunindo dezenas de organizações e fundos independentes da América Latina, África e Sudeste Asiático; na edição COP30 conta com parceria estratégica da Rede de Fundos Comunitários da Amazônia Brasileira e do movimento #ShiftThePower.
O ecossistema da iniciativa agrega 40+ organizações e fundos filantrópicos enraizados em territórios do Sul Global; entre os apoiadores financeiros da edição COP30 estão Baobá – Fundo pela Equidade Racial, Fundação Grupo Volkswagen, Fundo Brasil, Fundo Casa Socioambiental, Global Giving, Instituto Clima e Sociedade, GAGGA, Itaúsa, Prospera Social, Global Fund for Community Foundations, Instituto Ibirapitanga, Fundação Avina, ISPN, Bem‑Te‑Vi Diversidade e The Samdhana Institute
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