Artigo analisa e derruba ideia de conceito único para arquitetura filantrópica do país
Artigo publicado originalmente em inglês na Proximate. A tradução para o português foi realizada pela equipe d’A Casa Sul Global.
Por Maria Amalia Souza*
No início deste ano, escrevi uma versão deste texto para meus colegas brasileiros.
Hoje, escrevo para vocês, membros da comunidade filantrópica internacional que têm interesse ou já atuam no Brasil. Gostaria de compartilhar algumas preocupações sobre o uso generalizado do termo “filantropia brasileira” como se fosse um campo homogêneo – o que está longe de ser!
Há uma tendência crescente – tanto no Brasil quanto em alguns espaços filantrópicos internacionais – de usar o termo “filantropia brasileira” como se se referisse a um campo único e coeso. Talvez, na ânsia do setor de Investimento Social Privado (ISP) de se engajar mais com a filantropia internacional, eles tenham introduzido recentemente essa palavra e conceito em suas narrativas.
Mas estão deixando de lado uma grande parte da “filantropia brasileira” que já existia antes mesmo de o setor se consolidar. Esse equívoco foi reforçado pela mídia especializada internacional, que reproduz essa narrativa sem compreender plenamente a arquitetura filantrópica do país, apesar dos meus repetidos alertas.
O resultado é uma distorção. Cria-se, internacionalmente, a impressão de que a filantropia brasileira é composta principalmente — ou até mesmo exclusivamente — por instituições baseadas em riqueza e suas iniciativas. Não é.
O que existe, na verdade, são infraestruturas distintas — e em grande parte paralelas. Compreender essa distinção não é um detalhe semântico. Ela molda o fluxo de recursos, a construção da legitimidade e, em última análise, os resultados possíveis.
Nos últimos anos, o campo da ISP tem se engajado com um pequeno número de redes internacionais de filantropia, nas quais participa ativamente. Entre elas, disseminou-se a suposição de que o campo da filantropia brasileira ainda está em formação ou é composto principalmente por detentores de riqueza.
Na realidade, a filantropia no Brasil — em seu sentido clássico de infraestrutura organizada de concessão de subsídios — existe há mais de 50 anos. Ela foi construída não a partir da riqueza acumulada, mas da necessidade de confrontar uma das sociedades mais desiguais do mundo.
O Brasil permanece entre os 10 países mais desiguais do mundo. Cerca de 1% dos proprietários de terras controlam quase metade de todas as terras agrícolas. O país figura entre os que apresentam os maiores índices absolutos de feminicídio, lidera globalmente em assassinatos de pessoas transgênero e tem sido consistentemente um dos países mais perigosos para defensores do meio ambiente e da terra.
Nesse contexto de desigualdade, emergiram dois sistemas distintos de mobilização e distribuição de recursos.
Já na década de 1970, alguns fundos filantrópicos brasileiros começaram a apoiar movimentos sociais. Outros seguiram o exemplo nas décadas de 1990 e 2000, construindo uma forte rede de fundos independentes de justiça social e socioambiental — em grande parte com parceiros internacionais — para apoiar a democracia, os direitos e a proteção ambiental em todo o Brasil.
Essas instituições foram criadas para fazer algo muito específico: levar recursos a comunidades e movimentos já enraizados em seus territórios.
Como fundadora do Fundo Casa Socioambiental, participei da construção desse campo por quatro décadas. Desenvolvemos governança, sistemas de concessão de bolsas e relações de confiança de longo prazo com comunidades que trabalham com equidade racial, justiça de gênero, direitos humanos, direitos LGBTQIA+, justiça ambiental e resiliência democrática.
Esses fundos ajudaram a moldar ecossistemas nacionais como a Rede Comuá, além de contribuir para espaços filantrópicos internacionais, incluindo a Human Rights Funders Network, a Environmental Grantmakers Association, a EDGE Funders Alliance e outros. A Comuá também se tornou um dos principais pilares d’A Casa do Sul Global, fortalecendo ativamente a infraestrutura de fundos do Sul Global criados a partir de movimentos sociais.
Por décadas, no entanto, toda essa infraestrutura operou com quase nenhum acesso à riqueza privada nacional. A filantropia internacional sustentou grande parte do tecido democrático e socioambiental do Brasil.
Mesmo hoje, muitos desses fundos ainda dependem de fontes internacionais para 95 a 99% de seus recursos.
Paralelamente, as famílias e empresas mais ricas do Brasil desenvolveram sua própria abordagem para o engajamento social sob o que é conhecido como “investimento social privado”.
Por meio de fundações corporativas, institutos e iniciativas familiares, esse setor construiu estruturas visíveis e bem financiadas — frequentemente focadas na implementação de programas em vez da concessão de subsídios.
De acordo com dados do setor, essas instituições mobilizam aproximadamente 1 bilhão de dólares americanos por ano, com cerca de 80% historicamente direcionados à educação, sendo uma grande porcentagem executada por meio de suas próprias instituições.
Nos Estados Unidos e na Europa, grandes fortunas historicamente construíram instituições filantrópicas sustentadas principalmente por suas próprias doações. No Brasil, a abordagem de investimento social privado é mais voltada para a educação.
No Brasil, muitas instituições baseadas em riqueza combinam capital interno com captação ativa de recursos — incluindo fontes internacionais — enquanto operam, em grande parte, dentro de seus próprios limites institucionais.
Ao mesmo tempo, fundos voltados para a justiça — concebidos especificamente para redistribuir recursos — permaneceram estruturalmente desconectados da riqueza doméstica.
Isso produziu uma assimetria marcante. O capital internacional sustentou a sociedade civil e a infraestrutura democrática do Brasil, enquanto a riqueza doméstica se consolidou em sistemas paralelos.
Vivenciei isso diretamente diversas vezes. Apesar de décadas de trabalho e mais de 5.000 bolsas distribuídas pela Fundo Casa ao longo de duas décadas, vários participantes me disseram que nunca tinham ouvido falar do nosso trabalho. Eles desconheciam o ecossistema mais amplo de fundos independentes.
Isso não é coincidência. É o resultado de duas visões muito diferentes para o país. As duas infraestruturas coexistem, ocasionalmente se encontram, mas ainda não convergiram.
O Brasil não é simplesmente mais um contexto nacional.
Ele abriga ecossistemas estrategicamente relevantes em nível global e redes da sociedade civil profundamente enraizadas que operam na interseção entre desigualdade e degradação ambiental.
Quando o capital e a inteligência territorial operam em circuitos separados, as soluções permanecem fragmentadas. Os recursos não chegam àqueles que são mais capazes de proteger os sistemas vitais.
A convergência pode mudar isso.
Uma nova geração de detentores de riqueza no Brasil — e, em alguns casos, atores de longa data — está reexaminando seu papel na sociedade brasileira. Alguns começam a questionar a origem de sua riqueza, a escala da desigualdade e a eficácia dos modelos existentes. Muitos decidem investir nas soluções em que acreditam, geralmente criando seus próprios projetos, para os quais fazem parcerias entre si ou até mesmo com financiadores internacionais.
Mas outros começam a se aproximar de ecossistemas orientados para a justiça, reconhecendo que são confiáveis, experientes e estão em melhor posição para enfrentar as desigualdades mais complexas do país. Em vez de optar por investir em sua própria infraestrutura, escolhem formas mais econômicas, por meio de parcerias com fundos independentes.
Esses ainda são passos iniciais, mas sugerem que a distância entre as infraestruturas não é fixa. Ela pode ser reduzida intencionalmente.
Se instituições baseadas na riqueza e infraestruturas de concessão de subsídios com base territorial começarem a operar em coerência, o Brasil poderá oferecer algo raro: um modelo em que capital, proximidade e responsabilidade ecológica se reforçam mutuamente.
Fundos de justiça social têm feito muitos esforços ao longo dos anos para construir um diálogo com o setor de iniciativas de impacto social, mas o progresso é lento. No entanto, é nossa responsabilidade construir essa relação nós mesmos.
Para o campo internacional, nestas fases iniciais de engajamento com o Brasil, é importante reconhecer que a filantropia brasileira não se originou com a riqueza institucionalizada. Instituições filantrópicas internacionais de longa data, na verdade, têm sustentado a resiliência democrática e socioambiental no Brasil por décadas.
A “filantropia brasileira” não é um campo unificado. É um panorama de arquiteturas paralelas, acesso desigual ao capital e lógicas de ação distintas.
O engajamento que pressupõe coerência onde a fragmentação persiste não é neutro. Ele redistribui legitimidade, amplifica certas formas institucionais e pode reforçar as próprias assimetrias que busca abordar.
Os financiadores internacionais não são responsáveis por forçar a convergência. Mas deveriam querer compreender a arquitetura na qual estão entrando. Caso contrário, o custo recairá sobre os mais vulneráveis da sociedade brasileira, prolongando uma história de desigualdade e exclusão que lutamos para erradicar há séculos.
*Maria Amalia Souza é fundadora e diretora de Estratégias Globais na Filantropia do Fundo Casa Socioambiental.
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