Na Semana de Ação Climática de Londres defendemos ampliar o acesso do Sul Global aos recursos climáticos

Nossa participação na LCAW elaborou reflexões sobre papel dos fundos comunitários e revisão dos fluxos de financiamento.

Foto: Jonathan Browning

A necessidade de transformar a arquitetura financeira internacional para que os recursos destinados ao enfrentamento da crise climática cheguem de forma mais direta aos territórios esteve no centro do debate Pathways for Resourcing Community-Led Climate Solutions: A Multistakeholder Dialogue Promoted by Global South Funds, realizado por nós durante a Semana de Ação Climática de Londres, com apoio de WINGS, F20, Global Witness e Lift Up Philanthropy Fund. Ao longo de duas sessões, os participantes convergiram em um diagnóstico comum: os atuais mecanismos de financiamento continuam concentrando poder e recursos, enquanto comunidades que lideram soluções para adaptação, conservação e resiliência permanecem com acesso limitado aos investimentos. Focando em olhar para os desafios da arquitetura financeira global, questionando os critérios que definem o conceito de risco, o grupo ressaltou que que comunidades responsáveis por importantes resultados socioambientais seguem recebendo uma parcela reduzida do financiamento climático, enquanto estruturas financeiras distantes dos territórios concentram a tomada de decisões. Nesse contexto, foi defendido o fortalecimento de mecanismos de financiamento liderados pelo Sul Global, capazes de responder com maior agilidade às necessidades locais e ampliar o protagonismo das organizações territoriais.

Os participantes também chamaram atenção para a necessidade de revisar os fluxos financeiros que continuam financiando atividades prejudiciais ao clima. Houve consenso de que ampliar os recursos para soluções climáticas será insuficiente sem enfrentar, simultaneamente, os investimentos que perpetuam emissões, degradação ambiental e desigualdades. Exemplos recentes de perdas provocadas por eventos climáticos extremos também ilustraram a distância entre os instrumentos financeiros disponíveis e os impactos enfrentados pelos países mais vulneráveis. No encontro também foi destacada a importância de aproximar essas discussões das negociações internacionais sobre clima, apontando a articulação entre governos, mercado financeiro e organizações da sociedade civil como condição essencial para que os debates climáticos avancem em soluções capazes de responder à complexidade do desafio climático.
Em outro momento do evento os olhares se voltaram para as relações entre poder, filantropia e justiça climática, com a avaliação que existem avanços na incorporação da justiça climática ao debate internacional, mas que os recursos filantrópicos destinados ao clima ainda representam uma parcela muito pequena do financiamento global e permanecem concentrados em organizações sediadas no Norte Global.

Encerrando os debates, representantes de organizações comunitárias reforçaram que reconfigurar os fluxos financeiros deixou de ser apenas uma agenda de eficiência mas passa representar uma questão de sobrevivência para milhões de pessoas que já enfrentam os efeitos da crise climática. A principal mensagem do encontro foi clara: fortalecer mecanismos liderados pelos territórios, ampliar a confiança nas organizações locais e redistribuir poder na governança do financiamento climático são condições indispensáveis para construir uma transição climática mais justa e efetiva.

Fortalecimento de soluções climáticas lideradas pelos territórios em debate

Estivemos presentes também, representados pela coordenadora-executiva da Alianza Socioambiental Fondos del Sur, Juliana Tinoco, no encontro Redefining Scale in Climate Action, co-organizado pela Alliance Magazine e pela Global Alliance for Green and Gender Action (GAGGA). Reunindo especialistas para refletir sobre novos caminhos para ampliar o impacto da ação climática sem perder de vista as especificidades dos territórios, na oportunidade, Juliana reforçou a ideia de que a escala não deve ser entendida apenas como a replicação de modelos em diferentes contextos e que soluções climáticas efetivas precisam respeitar as dinâmicas sociais, culturais e ecológicas de cada território, valorizando a diversidade, a complementaridade das iniciativas e o protagonismo das comunidades locais. Tinoco também destacou a necessidade de direcionar recursos para fortalecer ecossistemas de colaboração, indo além do financiamento de projetos isolados, mas investindo em redes de confiança, solidariedade e aprendizado mútuo, capazes de ampliar os impactos das soluções desenvolvidas localmente.

Como exemplo desta abordagem, Juliana destacou a parceria entre o Fundo Casa Socioambiental e o banco público Caixa Econômica Federal, no Brasil, que prevê, ao longo de três anos, chamadas públicas que somam mais de 10 milhões de dólares americanos para apoiar mais de 400 organizações da sociedade civil que atuam com a economia da sociobiodiversidade no Brasil, buscando criar condições para fortalecer esse ecossistema e gerar impactos duradouros, que ultrapassem tanto o volume de recursos investidos quanto o período de execução do projeto.

 

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